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Força e Matéria - 5

Caruso Samel

MATÉRIA (continuação)

Visão filosófica da Matéria

Muitas teses ousadas e algumas até profundas foram formuladas ao longo da História sobre a Matéria. As concepções materialistas buscaram no desenvolvimento científico sua fonte de inspiração, firmando-se nas propriedades fundamentais da Matéria (campo de estudo da Química) e nas leis que regem o movimento físico (campo de estudo da Física). Foram os materialistas franceses do século XVIII que argumentaram a favor da tese de que a Matéria e o movimento são inseparáveis – na tentativa de sepultar o dualismo Força e Matéria de René Descartes – e de que o movimento é um atributo importantíssimo, uma forma de existência da Matéria. O fundamento do movimento inerente à Matéria gerou enormes controvérsias. Daí, entre tantas concepções de Filosofia Materialista, com fundamento na Matéria, devemos nos deter em apenas duas.

a) Materialismo Mecanicista

As leis da mecânica de Isaac Newton (1642-1727) eram consideradas leis universais da natureza e, também, princípios fundamentais do ser que condicionam todas as demais leis da natureza e da sociedade. Estas leis constituíam a base do materialismo vigente à sua época – o materialismo mecanicista, que precedeu ao materialismo dialético de Marx e Engels. Os grandes progressos científicos operados nas Ciências Naturais (Teoria da Evolução, de Charles Darwin) na segunda metade do século XIX (1859) e os descobrimentos da Física e da Química prolongaram-se por todo século XX. Neste período, com o desenvolvimento da teoria do campo magnético, o descobrimento da radioatividade e da estrutura complexa dos átomos e tantos outros, as bases da visão mecanicista do mundo se viram minadas. Pois que, enquanto não se encontrava uma explicação ampla para o fenômeno da radioatividade, usada como uma prova de que a Matéria "desaparece", a lei da conservação das massas, estabelecida por Lavoisier, parecia ter caído por terra (2). Apesar destes novos descobrimentos, os defensores do materialismo dialético continuaram afirmando que a destrutibilidade do átomo, sua inesgotabilidade, a mutabilidade de todas as formas da Matéria e de seu movimento foram sempre o pilar do materialismo dialético.

Surgiram, então, muitas correntes de filosofia materialista, com as mais variadas concepções, porém todas elas valendo-se exclusivamente das percepções de nossos sentidos físicos e dos instrumentos criados pelo próprio homem. Os materialistas tentam explicar o mundo que nos rodeia através da atividade de um órgão material, o cérebro humano, afirmando que até mesmo as idéias e os conceitos mais abstratos são produzidos pela atividade cerebral. Esta corrente de pensamento pretende nos passar a idéia de que o mundo que nos rodeia não é nada mais que uma forma concreta da Matéria, um determinado estado ou propriedade dela, um produto de sua mutação constante e regular. Os seguidores dessa corrente chegam a afirmar que a Matéria é a única base universal de tudo que existe, de todos os objetos e fenômenos da realidade e expressa a essência mais geral do mundo (2). Pensam assim e baseiam suas justificativas na realidade observada no desenvolvimento da Ciência ao longo da História do Homem, principalmente no aproveitamento tecnológico do último século.

A Matéria e toda a quantidade infinita dos mais diferentes objetos que existem e se movem no espaço e no tempo têm uma diversidade inesgotável de propriedades. Nossos órgãos dos sentidos podem perceber só uma parte insignificante de todas as formas da Matéria realmente existentes; porém, graças à construção de aparelhos e instrumentos de medição cada vez mais perfeitos, o homem amplia sem cessar os limites do mundo conhecido. Assim, as partículas elementares que a ciência descobriu no século XX se diferenciam qualitativamente por suas propriedades dos corpos macroscópicos com que se relaciona o homem em sua vida diária, e isto aprofunda, de maneira essencial, as nossas noções da Matéria.

b) Materialismo Dialético

Para o materialismo dialético, que impregnou o socialismo marxista adotado pela União Soviética e países satélites durante a maior parte do século XX, o conceito de Matéria como realidade objetiva tem um sentido amplo e caracteriza a Matéria e todas as suas propriedades, leis gerais, leis de movimento, leis de existência, etc. a ela associadas. Estes "agregados" são, diante deste conceito, verdadeiros acessórios inerentes à Matéria, como por exemplo, certa lei de sua existência, um tipo de movimento, etc., inseparáveis da Matéria, porém não idênticos a ela, e, portanto, não se pode conceituar de Matéria. Assim, o movimento, o espaço, o tempo e as leis da natureza possuem uma realidade objetiva, porém não se pode conceituá-los como Matéria. A matéria existe em forma de variedade infinita de objetos e sistemas concretos, cada um dos quais possui movimento, possui estrutura, concatenações e interações espaço-temporais e outras muitas gerais e particulares. A Matéria não existe fora dos objetos e sistemas, e neste sentido não há objetivamente "matéria como tal", matéria "pura", como substância primária e amorfa. O materialismo dialético admite a substancialidade da Matéria, porém só no sentido do que ela é precisamente como a única base universal, o substrato para as diversas propriedades, concatenações, formas de movimento e leis. Qualquer forma de Matéria (incluídos os microobjetos) possui uma estrutura complexa, uma infinidade de concatenações internas e externas, bem como faculdade de trocar-se em outras formas.

O materialismo dialético (2), que refuta a existência da "matéria primária" como essência última e imutável, reconhece a substancialidade da Matéria somente no sentido de que precisamente ela (e não a consciência, nem algo sobrenatural) é a faculdade base universal das distintas propriedades dos fenômenos e determina a unidade do mundo circundante. Afirmam os materialistas dialéticos que o desenvolvimento sucessivo do conhecimento permitirá, sem dúvida, penetrar em níveis estruturais mais profundos da Matéria, sem invalidar a sua filosofia. Por isso, o conceito de substância mudou qualitativamente seu sentido na filosofia marxista.

O materialismo dialético e as leis dele decorrentes servem de base metodológica para efetuar investigações científicas, elaborar uma concepção científica e materialista do mundo e interpretar os descobrimentos da ciência de acordo com a realidade do mundo Terra. Note-se que esta doutrina se aperfeiçoa sem cessar, se aprofunda com o progresso do conhecimento científico e se formam novas categorias e leis que refletem, em grau cada vez maior, a realidade, a qual será sempre cada vez mais complexa que todas as nossas noções atuais, inclusive as mais perfeitas (2).

Porém, o materialismo dialético falha ao afirmar que a Matéria é a base substancial universal de todos os fenômenos, não foi criada por nada, é indestrutível, eterna no tempo e infinita no espaço, tem existência objetiva e é independente da consciência. No nosso entendimento, trata-se de uma vã filosofia que não resiste a uma análise mais profunda (o grifo é nosso.)

Referências

1) Rossetti. Modelo atômico de Bohr – o átomo impossível. Disponível em: www.rossetti.eti.br/index.htm. Acesso em: 06 jul 2005.

2) Konstantinov, F. Fundamentos de la Filosofía marxista-leninlista – Materialismo Dialéctico – La materia y sus formas principales de existencia – Editorial Progresso – Moscú 1977. Disponível em 06 jul 2005.

3) Neto, Luiz Ferraz. Constituição do núcleo do átomo. Disponível em www.leobarretos@uol.com.br. Acesso em 06 jul 2005.

4) Montaner y Simón (Editora). Materialismo – Dicionario Enciclopédico Hispano-Americano. Barcelona: Montaner y Simón, 1893. tomo 12, p. 579-582. Disponível em www.filosofia.org/enc/eha.index.htm. Acesso em 06 jul 2005.

5) Kaku, Dr. Michio. Há uma teoria do tudo? (Is there a theory of everything?). Disponível em: http://paginas.terra.com.br/educacao/labertolo/Cosmologia/Cosmology/life_Hawking.htm. Acesso em: 06 jul 2005.

6) Anônimo. Força nuclear fraca. Disponível em: www.pcarv.pro.br/inicio/default.asp. Acesso em 30 jun 2005.

7) Anônimo. Força nuclear forte, extraído de Hawking, Stephen W. Disponível em www.pcarv.pro.br/inicio/default.asp Acesso em 30 jun 2005.

8 )Konstantinov, F. Fundamentos de la Filosofía marxista-leninlista – Materialismo Dialéctico – El movimiento y sus formas principales – Editorial Progresso – Moscú 1977. Disponível em 06 jul 2005.

9) Chauí, Marilena. As idéias de substância e de causalidade. Universidade de São Paulo, USP. 2005.

10) Cobra, Rubens Queiroz. Páginas de filosofia moderna. Disp.: www.cobra.pages.nom.br/frmp-bruno.html#Caixa. Acesso em 27 jun 2005.

11) Cobra, Rubens Queiroz. Páginas de filosofia moderna. Disp.: www.cobra.pages.nom.br/frmp-leibniz.html#Caixa. Acesso em 27 jun 2005.

12) Anônimo. Guilherme Leibniz. Disponível em www.mundodosfilosofos.com.br/cartesianismo.htm#E. Acesso em 27 jun 2005.

13) Anônimo. Os fundamentos da monadologia. Dispon.: www.mundodosfilosofos.com.br/leibniz.htm#A Acesso em 27 jun 2005.

14) Anônimo. O cartesianismo (Vida). Disponível em: www.mundodosfilosofos.com.br/descartes.htm#A. Acesso em 27 jun 2005.

15) Anônimo. O cartesianismo. (Discurso sobre o método). Disponível em: www.mundodosfilosofos.com.br/descartes2.htm#A. Acesso em 27 jun 2005.

16) Anônimo. O cartesianismo (Meditações) Disponível em: www.mundodosfilosofos.com.br/descartes3.htm#A. Acesso em 27 jun 2005.

17) Anônimo. História da Filosofia Moderna – cap 15 Art 1º Filosofia Racionalista - Séc XVIII – itens 607-613. Disponível em: www.cfh.ufsc.br/~simpozio/novo/2216y605.htm#TopofPage. Acesso em 02 jul 2005.

18) Vergez, André e Huisman, Denis. História dos filósofos. 3a ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1976. p. 187-197.

19) Stevenson, Jay. O mais completo guia sobre filosofia. São Paulo: Mandarim – 2001.

20) RACIONALISMO CRISTÃO. 42. ed. Rio de Janeiro: Centro Redentor, 1991.

21) Leibniz, W. F. Monadalogia. Apud: Vergez, André e Huisman, Denis. História dos filósofos. 3a ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1976. p. 187-197.

22) Spinoza, Baruch. Apud: Vergez, André e Huisman, Denis. História dos filósofos. 3a ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1976. p. 170-184.

23) Pinto Coelho, Aristides. O que você deve saber sobre a energia nuclear. CNEN – Comissão Nacional de Energia Nuclear. Rio de Janeiro: Graphos, 1977. 32 páginas.

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